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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Silêncio

a grito
encolhido
me deixa
surdo


louco
um ab-surdo de silêncio
um grito inacabado
calado


daqueles silêncios ensurdecedores
daqueles silêncios em que se dizem
tudo

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

de longe

amantes andantes
propõem um romance
de longe!
em olhares afins.

o simultâneo palpitar simula coreografia
parara-tim-bum ♥
parara-tim-bum ♥

quando um olhar percebe outro olhar
é de se apostar sedução.
se prende, finge-se não ver!
se perde, procura de repente
o flerte
pisca lentamente

um conselho?
corre o risco!
a solução é tirar a prova dos 9
das duas, uma:
ou vai, ou racha!
ou risos!


# para Amanda, com todo tempêro da Timbalada rs

sexta-feira, 18 de junho de 2010

batom de palavras

lábios lascivos
de lábia
nativos da Arábia
lábios de beijos

lábios travessos
cantada, desejo

lábios de adejo
em labirintos
e absinto muito
embriagado e aflito

lábios adultos
corados, carnudos
batom de palavras
saliva
mudo

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Tenho escrito mais versos que verdade

Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?
Nunca!
Seria um indivíduo perfeitamente consentível,
Teria casa própria e moral.
Senhora Gertrudes!
Limpou mal este quarto:
Tire-me essas ideias de aqui!

Álvaro de Campos

C. F. Abreu


foi na biblioteca da UFBA. abri um livro e tava lá esse envelope. achei tão oportuno à ocasião...

HOJE É DIA DE MUDAR DE CASA, DE RUA, DE VIDA.
Caio F.

PS: QUEIRA MUDAR.

~~~

tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe... ou percebe, mas finge que não tá vendo. ou então a gente guarda em algum lugar e é preciso que algo ou alguém incite a questão crucial que vai nos fazer ressignificar o que foi deixado pra trás. eu tô falando de mim. eu tô falando de quando eu era um menino e queria dançar mais que tudo. tenho conversado isso pra minha terapeuta e percebido que muita coisa fui deixando pra trás - não trouxe comigo o meu imaginário infantil, descuidei dele.

sábado, 5 de junho de 2010

a cama



era tão delicada a palavra que ele preferia dizê-la com nanquim borrado nos lábios.
o nanquim manchava, marchava e deixava rastros.
um bocado de palavras. nuas. cheias de apelos. ditas de assalto.
as palavras borraram de carvão os ouvidos e os olhos de quem as cheirava - coloridas e incríveis.
as palavras beiravam o ritmo. o intimo. e, galhofeiras, estreitavam o vínculo dos corpos aflitos por sedução em gemidos de cabeceira de cama - lotada de paixão, num colchão de suor e besteira.
a palavra era um nó na garganta quando o ruido era gutural de prazer - (in)definível (in)decifrável idioma.

* Ilustração de Vinicius Carmezim

sexta-feira, 4 de junho de 2010

~

me arrepia os pelos
o irrecusável apelo
e me abro todo
com seus beijos
malícia
exercício lícito de desejos

segunda-feira, 31 de maio de 2010

bicho

às vezes sou místico
enigma espesso
existo
sou meio poeta

às vezes sou bicho
instinto selvagem
sou uma mentira
em meia verdade

às vezes sou presa
surpresa capricho
vaidade
disperso signo

pela metade

terça-feira, 25 de maio de 2010

Do Desejo

II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

V

As maçãs ao relento. Duas. E o viscoso
Do Tempo sobre a boca e a hora. As maçãs
Deixei-as para quem devora esta agonia crua:
Meu instante de penumbra salivosa.
As maçãs comi-as como quem namora. Tocando
Longamente a pele nua. Depois mordi a carne
De maçãs e sonhos: sua alvura porosa.
E deitei-me como quem sabe o Tempo e o vermelho:
Brevidade de um passo no passeio.

~

Comprei um livro da Hilda Hilst ontem, tendo postergado isso por muito tempo na minha vida. Antes tarde do que nunca, né?!

Os poemas II e V foram retirados, respectivamente, dos livros Do Desejo e Amavisse. Os dois livros integram a obra homônima Do Desejo (Editora Globo), reunião de sete livros da autora, produzidos num intervalo de seis anos. 
Hilda faleceu em 2004, na cidade de Campinas (SP).

sábado, 22 de maio de 2010

°

a chuva lava a cidade.
e lava a alma dos homens como eu
a chuva na calçada lava a palavra de giz
e na areia
molhada
desmancha a declaração que diz
te amo








* ilustração vânia medeiros

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Caixa - preta

Sou um homem.
Portanto,
mais que palavra.

Não pronuncio
o sentimento
apenas como palavra.

O que foi dito
ao entardecer
não se confirma
na madrugada.
O que foi visto
no sonho
não se confronta
com a realidade.

Sou um homem.
Portanto,
uma surpresa.


Damário da Cruz

In: Segredo das Pipas, Salvador, EPP PUBLICAÇÕES E PUBLICIDADE/ BANCO CAPITAL, 2003.

Poeta e jornalista Damário Cruz morre vítima de câncer de pulmão

de Antônio Pastori - Redação CORREIO

O Poeta e jornalista Damário da Cruz, morreu na madrugada desta sexta-feira (21) no Hospital Jorge Valente, em Salvador. Ele vinha realizando há meses um tratamento contra câncer de pulmão. Poeta e jornalista, o corpo dele está sendo velado até o meio-dia no Cemitério Jardim da Saudade na capital.
No início da tarde, segue para Cachoeira, cidade em que vivia, onde será velado no prédio da Câmara de Vereadores e, em seguida, sepultado no Cemitério da Piedade. As informações são da Agecom.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

anúncio


me arrisco
fabrico ilusões

anúncio
incito emoções

meu preço
qualquer endereço

garanto desejo

reto, rijo, feito bicho
sem beijo
espelindo gozo vivo
coito sem compromisso

e quando enfim o resolvido
descolado, cada um de um lado
calado
mijo, me lavo

te cobro

disfarço

passo...

* Garra, de Hamilton Lima

terça-feira, 18 de maio de 2010

Haiti

Haiti
há em ti
um si
dissonante
um certo quebrante
emoções

Haiti
há em mim
canções
pudesse cantar
faria
poesia

há um homem, um Porto, um Príncipe
há memórias tristes
há muitas mémórias
tríplices

Ayiti palavra certa
parada incerta
sangue em veia aberta
um dissonante grão

sábado, 15 de maio de 2010

maré baixa

quando a maré baixa vem
no pé de quem chuta
no ar, assim displicente,
a água que não tem mais fim
quente
se torna imensidão:
é azul
reflexo de céu nu
refúgio de pescador

toda a poesia
que cai molhada
água salgada
não cabe num sal de mar

pinga, banha, arranha
desaba a maresia
é toda a poesia
que não cabe no olhar
nem no jato de água que sobe

a poesia não é o poeta
nem cabe no poeta
não é o pescador
ou andarilho na areia banhada de sal

a poesia se atreve a ser pé
no instante mesmo em que o olhar captou o chutante


















* foto de niltim

quarta-feira, 12 de maio de 2010

coito interrompido

na boca do céu
vermelho
do beijo de língua
etéreo
misturei saliva

no olhar que agora não esquiva
encarei o flerte
o doce deleite
doces deletérios

e as pontas dos dedos
que cabem segredos
vêm tocar
cingir, fremir

no cangote
o cheiro de decote
mistura de recortes:
perfume de mulher
em homem não cola

domingo, 9 de maio de 2010

alegoria

prazenteiro amor reincidente

aleg(o)ria aderente

criação, fantasia


me permito novamente

tornar-te presente

em minha companhia


inventa prosa, poesia

enfeita meu dia

me fazendo acreditar


faz do outro objeto,

perfeito projeto

em singular harmonia


preenche a carne de carne

provoca afasia

num breve

suspirar

domingo, 2 de maio de 2010

sem título

pra parecer malícia, menino, se despe
se livra do pudor e da obrigação de ser
não pede passagem, escancara até o amanhecer
vê o dia nascer

dançando!

o|o

quando bebe, branquinho põe logo as manguinhas de fora e começa a dançar
é deboche, é sorriso, é sedução no olhar
tropeça em si, mas cobre imendando um bailar
pega o primeiro mocinho faceiro, parece ter fé, e seja lá o que deus quiser


uma concreta de rafael dos prazeres

~





quando passar a primavera
mandar um alô aos tios do verao
~~~


* ilustração de maria valentina